Quando o povo se apercebe que o grande problema social das politicas tem origem na sua falta de cultura, intervenção e participação activa nas mesmas políticas, as propostas de debate começam a surgir.
Este livro, é apenas um dos muitos exemplos concretos que estão a gora a surgir, das diversas fracções de um parto adiado desde a instauração da democracia em Portugal.
Algo de muito bom esta crise contêm: a evidência da urgente necessidade dos cidadãos exercerem os seus deveres e direitos cívicos, de criarem plataformas eficientes de regulação dos políticos que elegeram.
Porque os países com maior índice de corrupção, têm os sistemas democráticos mais bem organizados, gerando riqueza e sustentabilidade social? Porque os cidadãos participam activamente, local e globalmente na construção de politicas de qualidade de vida para as suas sociedades.
O que faz o nosso povo diariamente e comprovadamente, em prol da cidadania local, regional, do país? Onde está o registo cívico da participação activa dos deveres obrigatórios de cada cidadão que quer ter os seus direitos mantidos?
Pois é! Delegaram os seus poderes no povo que elegeram e viraram costas às práticas de transparência, ética e responsabilidade que lhes compete regular, com lei cumprida a rigor, para com esses eleitos por eles.
Um politico não é mais que um cidadão de pressuposta competência profissional comprovada, que serve os interesses do cidadão, devidamente pago pelos seus impostos.
Não se regula e exige profissionalismo, responsabilidade e honestidade, a um trabalhador que admitamos nas nossas casas e empresas?
Então porque deixámos durante 38 anos esta responsabilidade civil por cumprir, deixando a monte, a saldo, os nossos bens, o património de cada português, serem administrados sem nosso conhecimento e co-responsabilidade?
Há uns anos perguntei a um condutor de táxi, depois de pacientemente o ouvir queixar-se dos políticos e de diversas acusações de voz corrente, se quando ele recebia o ordenado o entregava ao vizinho para ele e a família dele, administrarem a sua vida durante o mês. Se ele metia nas mãos do vizinho, a responsabilidade de gerir o que comia, o que vestia, o que devia fazer, a educação dos seus filhos, a gestão da sua própria familia. Disse-me que não, que nunca tinha pensado na politica e nos políticos dessa maneira. Passou o resto da viagem a fazer-me perguntas sobre como e onde devia participar civicamente e a dizer-me que eu tinha razão.
Infelizmente, a razão dos outros não paga a divida que tenho e que temos de pagar das suas/nossas irresponsabilidades, da sua/nossa ignorância e inconsciências, do seu/nosso não querer saber do que se passa no país Portugal que ele próprio paga e é responsável.
Propalei durante mais de vinte anos que iriamos chegar a esta situação, era inevitável. Uma social democrata perigosa, contra o sistema e os seus agentes ditos democráticos. Infelizmente, as práticas "democráticas" de muitos destes agentes, estão por prestar contas à justiça por corrupção, por delapidação do estado que somos, andam ou deveriam andar de pulseira electrónica e no minimo, deveriam retratar-se e ter vergonha, nunca mais pondo os pés no país que roubaram e que deixaram sem futuro para todos nós.
Mesmo com a dolorosa frustração de anos a falar para "bonecos" de ambos os lados - eleitores e politicos, herdei agora a satisfação de saber não ter sido em vão a bandeira hasteada da coerência e o preço altissimo pago por ela, facturada pelas "empresas" pessoais desta juventude que andou inconscientemente deslumbrada a adiar a construção do ideal democrático.
Assisti durante anos à colocação automática de rótulos em pessoas que se atreviam a dizer NÃO ao sistema, a ter voz crítica de muitos alertas evidentes.
Infelizmente, os rótulos são apenas meios fáceis de catalogarmos a irresponsabilidade e ignorância abissal que nos assiste, de não mexermos no que obviamente nos incomoda e sabemos estar mal, no que teimamos em ignorar e não assumir como trabalho de casa, como educação pessoal e civica, na prestação evidente que todos - rigorosamente todos, temos uns para com os outros.
É tempo de acabar com as inuteis justificações de capitalismos, comunismos ou outros "ismos" separatistas dos interesses que são comuns a todos nós e que aqueles que elegemos tem obrigação de cumprir ou de prestar contas pelo seu incumprimento.
Pagamos o preço da nossa falta de cultura cívica com os resultados da crise, seja ela nacional ou global, comprovando assim que o estádio de maturidade da nossa espécie ainda não foi atingido.
Caminhamos com a ajuda desta e de outras crises consequentes, cujas faces primárias aparentes são terríveis, dolorosas, mas que se mostram verdadeiras mestres pedagogas, para a aprendizagem activa da excelência do nosso potencial humano.
É necessário agora um bom exame de consciência, um bom exercício de humildade em cada um de nós, para que as lições desta dantesca crise global nos ensine realmente o que não soubemos nem quisemos aprender até aos dias de hoje.
Estamos pois, dolorosamente no bom caminho.
Paula Salgado
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